domingo, 24 de maio de 2009

Túmulos. V. Nankyoku Monogatari


Tínhamos pela frente aqueles dois meses de Inverno. Dias intermináveis no frio e implacáveis no vento ou - na ausência deste - no rigor, da cegueira das neves mais do que das noites; ainda que o sol brilhasse sempre, a coberto do horizonte e dos glaciares.
Não há nada mais belo neste mundo do que a solidão nos confins da Terra quando todos os elementos conspiram contra a permanência; mas que ainda assim nos concedem respeito por nos termos escusado a partir. Eu sei que isto parece vago e estranho. Mas não o era para nós, cães, que nascêramos sob as luzes da Aurora Austral. O mundo dos nossos olhos guardava em si mesmo todas as respostas transcendentais.
Mas é precisamente quando a existência se torna no único alimento que todas as perguntas se extinguem. Aqui, nos gelos eternos do sul, o tempo não interessa. Aquilo que diz que passado é passado, presente ou futuro, não tem qualquer importância.
Tenho as patas feridas de sangue. Tenho os caninos feridos de fome. Cobre-me o pelo o eterno branco e o azul; tenho comigo o gelo e os mares que se estendem negros, ao longo das fendas abertas e dos glaciares.
Eu sigo o meu irmão por toda a terra: ele, que se libertou da morte certa antes de todos.
Dêem-me a morte, mas a morte incerta. Seja a fome no gelo flutuante, seja o vento impiedoso ou o abrigo derradeiro na carcaça das baleias. Sol ou noite tanto faz, pois se o prazer ou a dor são agora meras palavras.
Todos os homens partiram; raça maldita, mesmo que sendo o melhor amigo.
E contudo este é o mais belo testemunho da existência. O branco azul do gelo, o negro mar e o vento, os dentes, as garras e os ossos; meus, das focas e das baleias.
Nasci e cresci cativo das minhas forças.
E então, enquanto aguardava a morte e a Primavera, cedi a esta última fraqueza: lembrei-me de nós - tu e eu - quando este mundo ao Sul que hoje me recebe vivia ainda só das cores dos menestréis e das especiarias; nos pergaminhos.
Eis que sou morto, e estou vivo.

7 comentários:

HornedWolf disse...

Muito bom. :) A que estranho (e estranhamente familiar) viajar nos levas.

Gotik Raal disse...

HornedWolf,

Partilho contigo a mesma viagem e a mesma estranheza. Por estranho que te pareça. Pois escrevo apenas do que vejo nos meus caminhos.

Abraço!
Gotik

Morgana La Folle disse...

Não toco neste texto. É demasiada a beleza. Emudece.

Gotik Raal disse...

Morgana,

Um beijo, então.
Com todo o prazer de te ver regressada à Katedraal.

Gotik

bat_trash disse...

A carne conduz a alma numa condição enferma
A alma submete a vida numa solidão sem cura...

Beijos.

Padim disse...

Maravilha de texto. Fico imaginando aquela terra muito intocada. Que um dia eu possa pisá-la.
Inclusive ando procurando o filme Nankyoku Monogatari. Desculpe perguntar assim, mas sabe onde posso encontrar?

um grande abraço,
Cícero.

Gotik Raal disse...

Cícero,

Obrigado, e partilho desse desejo das terras incólumes!
Quanto ao Nankyoku Monogatari poderás encontrá-lo talvez em terras da "Amazonia" também como "Antarctica", ou noutros círculos mais sombrios... é em qualquer dos casos difícil. Se te for de todo impossível, regressa aqui.

Um abraço e obrigado pela visita!
Gotik Raal