domingo, 12 de outubro de 2008

Nosferatu

Verde é a noite; e o musgo, o cetim, a pele: o órgão vivo das trevas densas e estáticas que paralisam todos os sons. Morrem à nascença, nas gargantas, na anestesia dos dentes afiados.
Verde é o sangue, vermelho nos sonhos da noite eterna, de alcovas lacradas, de sedas, de rendas brancas.
Morre também o sol nas fronteiras do castelo que a vista alcança, tingindo de púrpura a pedra húmida das ameias estreitas.
Não entres. Entra, vem. O chão abre-se sob os teus pés movidos de vontade própria. O caminha é seguro, vem a mim.
O frio sobrenatural. Aqui, no conforto dos meus braços.

Num poço seco, na eternidade onde o nunca e o sempre se confundem, exalas então o último sopro da alma a que não mais chamarás tua.

5 comentários:

Lord of Erewhon disse...

É um belo filme, mas também gostei do texto.

Gotik Raal disse...

A imagem é da versão de 1979 de Werner Herzog, e a côr verde é uma forte impressão quee retenho, ainda hoje, desse filme. Só o vi quando saiu e por isso nem sei se a côr tinha assim tanta importância, ou se foi uma "sinestesia" que ficou.
Obrigado pela visita, Lord of Erewhon.

Lord of Erewhon disse...

A cor é esbatida, a lembrar «velho», como nas primeiras películas coloridas. Não me lembro do verde, mas deve ser um dos muitos fotogramas «psicológicos». A versão do Herzog é um bom filme, a melhor réplica colorida e sonora ao do Murnau, com o actor fetiche, Klaus Kinski, uma Adjani no pico da sua beleza e Bruno Ganz numa lição de interpretar. Do Herzog, melhor e para o meu gosto, só Aguirre, a Fúria de Deus, também com Kinski.

R. disse...

Tens aqui um GRANDE blog*

E toma lá mais verde

;)

Gotik Raal disse...

Lord of Erewhon,
Do Aguirre, então, só uma muito vaga lembrança. Mas está na altura de rever ambos, vou tratar disso. Obrigado pela indicação.

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***
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Vertigo,
Quanto aos Mão Morta, esse é talvez o meu álbum português favorito. Agora, não o vi ao vivo e não me lembrava das imagens, mas o verde ali faz todo o sentido. É estranho que seja, a um mesmo tempo, tão sinónimo de natureza viva e natureza morta... ou talvez não: põe-nos em contacto com o nosso lado "bestial", primordial.
Obrigado pela visita e pelas Maiúsculas.