domingo, 9 de agosto de 2009

Bósforo

Há um tempo para a pedra se vestir de musgo, para os líquenes cobrirem as árvores e as paredes. É um tempo de heras e galhos retorcidos que navegam o mundo inteiro no espaço de um jardim, de uma clareira. Os pássaros partiram, e todos os insectos fizeram um pacto de imobilidade e de silêncio. Um veado macho aparece, por vezes, como a noite e como a lua; mas não estão ali, na verdade: pertencem a um mundo à parte, de sombras, onde o tempo menor ainda é rei; como o teu corpo morto, esquecido entre as ervas altas à beira do caminho.
Será que existes, pois se ninguém te encontra?

É este o tempo dos calendários, em que me perco do regresso à Catedral. É este o tempo suspenso, milhares de anos para além da tua vida inteira, do pó descendo na luz que varre o transepto como a espada enterrada na pedra.
Quem te arranca do sono que habitas?

E então o tempo adormece - e tudo é vivo outra vez. O caminho faz-se estrada a meus pés, inevitável. Distingo a torre da Catedral nas colinas, como Bósforo entre os teus seios.

3 comentários:

Morgana La Folle disse...

"Será que existes, pois se ninguém te encontra?"

Esta frase contém mundos vastos, por explorar. E é exactamente por este género de explorações que me interesso. Acho que é a coisa que faço "for a living" :)

(pena não ser lucrativo...hélas...)

Dark kiss

Leto of the Crows disse...

Cito a mesma frase que a Morgana: "Será que existes, pois se ninguém te encontra?"

É tanto o que não se encontra e existe sem encontrar. Pode existir, e só quem crê o saberá.

Abraços ^^

Gotik Raal disse...

Quando estendes a mão e os teus dedos descansam em frente aos teus olhos, tocando esses mundos infinitos que se estendem pelo horizonte a perder de vista, esses mundos são teus.

Beijos, do
Gotik Raal