segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Passagem Interior

Onde antes todo eu era sol avançam hoje os fiordes, de novo para as águas. Um estranho calor desprende-se deste mundo puro, como a seda das tuas mãos.
As águas negras, imensas, de profundidades milenares, despedem-se dos oceanos e tomam por fim o rumo dos estreitos e das passagens, das grandes plataformas de gelo, entre a terra mãe e os cumes dos arquipélagos.
São os domínios das águias reais e douradas, dos ursos castanhos e dos grandes cetáceos - de todos os olhos negros, mágicos e inalcançáveis onde habita ainda o Deus dos primeiros dias. Um mundo entre os mundos. O maior de todos e o único.
O tempo, esse, entra na passagem interior como todas as criaturas, tomado do pasmo das alturas e do azul dos glaciares. Chega com os homens mas vive um pouco menos do que estes. A vida, enquanto coisa nossa, nada mais é do que um suspiro, afinal, um leve agitar das brumas de onde emergem os navios.
E todos os navios são fantasmas. Todas as brumas. Todas estrelas sobre o Árctico.
Não sei onde me encontrar, sem me sentir perdido.
Mas daqui, do fundo e do alto, percebo o âmago destas coisas mais do que a mim mesmo.
Este é o meu mundo.

9 comentários:

bat_trash disse...

o tempo age, inexorável;
mas a vida se refaz, a todo instante:
nas águas que rolam no rio,
nas nuvens que passam no céu...
nas flores que abrem suas pétalas,
na amizade que se renova sempre,
nas crianças que brincam distraídas,
e na fotografia nossa de cada dia...


Bat Kiss.

bat_trash disse...

Acho que sei porque chamei-te de Gotik Graal(ou será que escrevi Raal separado? só sei que escrevi errado e dei-me conta quando entrei aqui): minha nanãe trouxe uma versão traduzida para mim da Demanda do Santo Graal e fiquei com isto na cabeça.

Beijos.

Frankie disse...

Isto é lindo: A vida, enquanto coisa nossa, nada mais é do que um suspiro, afinal, um leve agitar das brumas de onde emergem os navios.
Gostei muito deste teu mundo interior e primordial; é de tirar o fôlego :)

Um beijo*



PS: O meu nocturno... reflecte as noites de hoje.
O teu... esse meteu a ferida n'A Noite passada.
Por isso me foi tão difícil lê-lo. Há coisas que devem ficar guardadas e onde não devemos mexer mais, sob pena de nos ferirmos em algum caco mais aguçado que tenha ficado caído e esquecido...
Na minha Noite há muitos segredos. E a maior parte deles pertecem àquela categoria de coisas que não devem ser desvendadas porque ninguém as gosta de ouvir...

Seja como for...
...gosto da forma como tu lês... Normalmente vai muito para além do que está escrito; lês espaços, silêncios e adivinhas intenções.
Não é qualquer um que o faz; tens uma lucidez invejável, embora me atreva a dizer que às vezes é demasiada.

DarkViolet disse...

Imaginei aguas de seda, infiltradas em gelo, onde o navio navegava num cubo de gelo.. Os remos eram feitos de asas no coração flutuante do desejo...onde já vou com a imaginação eheheh

Roderick disse...

Faz recordar lendas escandinavas com barcos rumando ao desconhecido, encobertos pela bruma...

Gotik Raal disse...

Bat Trash,

É a renovação do tempo, sim, da vida e dos dias. Mas ao mesmo tempo é uma dimensão em que a existência, tão marcada de certos valores, se redescobre a si própria numa certa insignificância. Uma desamplificação, o poder sentir o vento nos ossos.

"1. Véspera de Pentecostes, houve muita gente reunida em Camalote, de tal modo que se pudera ver muita gente, muitos cavaleiros e muitas mulheres de muito bom parecer. O rei, que estava por isso muito alegre, honrou-os muito e fez servi-los muito bem e toda coisa que entendeu que tornaria aquela corte mais satisfeita e mais alegre, tudo mandou fazer."
É deste que falas?

Um beijo,

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Frankie, obrigado.

A Noite tem esse papel, também, o de albergar os segredos mais sombrios e, muitas vezes, estes são a própria noite dos dias. Tremer à sua lembrança faz parte dos dias, dessas noites. E também o silêncio, a coisa não dita. Mas depois, pela força desse mesmo escuro, julgamo-nos sós, e cruzamo-nos muitas vezes sem nos tocarmos, e essa solidão é fértil de fantasmas.
Não sei se alguma vez se poderá ser demasiado lúcido, mas espero contudo que não sintas as minhas leituras que referes como uma invasão. Sou bem cioso dos meus territórios, também.

Um beijo,

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DarkViolet,

Saber remar na imaginação é um feito. Se viste no meu texto dessas marés favoráveis, então também a ti te agradeço o teres-me isso dito.

Um abraço,

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Roderick,

Estando longe, ainda assim te aproximaste na latitude. E muitos escandinavos viram de perto este mundo maior, conquanto longe das suas próprias terras. Então a ti te digo que este lugar existe. E não o tendo jamais visitado, sinto que o conheço também intimamente.
Gostei da tua leitura.

Um abraço,

Gotik Raal

bat_trash disse...

E desse mesmo....:)

Beijos.

pS: Depois do teu comentário naquele meu poema criptograma dei a ele o título de Gênesis.
Sou péssima para títulos. Na maior parte das vezes, nascem de comentários.:P

Gotik Raal disse...

Bat,

Foi engraçado :)
Respondi-te nesse dia, e depois quando lá regressei e vi o título achei que sem o ter notado tinha sido influenciado por ele, subliminarmente, da primeira vez.

Sabes o que mais?
Vou lá de novo para o reler (e não só, claro).

Beijos,
Gotik

MagnetikMoon disse...

Do gelo emerge um fogo que a Alma acolhe em cada novo fôlego, em cada nova batalha interna,em cada libertar:)

FELIZ YULE/NATAL!

Magnetikiss;)