sábado, 17 de janeiro de 2009

Cristo no Deserto

Naquele dia, a manhã não afastou as trevas como era seu costume.
Ao invés, as primeiras luzes trouxeram consigo um véu metálico, de um brilho opaco, que reflectia a têmpera da grossa armadura que envolvia toda a Terra desde as matinas.
Depois foi um trovejar rouco e enraivecido vindo das entranhas do chão, e que anunciava a chegada das águas, do dilúvio.
Da torre mais alta da Catedral, cujas janelas estreitas deixam abarcar os quatro cantos do mundo, por todas elas se anunciava aquele cerco dos mares que, num ápice, devoraram tudo o que era seco.

Coisa de maravilha. As águas negras cobriram as represas e diques, as árvores, os caminhos e os castelos, encheram todos os poços e fossas, e não mais houve cores no céu ou na terra, e não mais houve terra ou céu. Apenas aquele inferno de mercúrio, sem espuma.

A Catedral fez-se Nau e então, lentamente, soltou amarras daqueles verdes prados submersos e partiu, o ventre cheio do sombrio silêncio, as naves enfunadas pelos seus ventos de séculos. Sobre as ondas, a torre rasgava círculos na copa das núvens, e nestes estava toda, a única luz viva que se viu naqueles dias; e por estes desciam todas as águas do céu que libertavam os vapores de enxofre das águas da terra.

Por três montanhas passou sem aportar e cumpriram-se vinte dias.
A caça, hirta e lívida de morte flutuava à deriva, os cascos entrechocando-se como mastros - e tudo o que tinha chifres era morto.
Passou um sino sobre as águas com dois camponeses adormecidos, da sua corda pendendo, enforcado, o monge das horas - e tudo era chumbo.
Por duas colinas passou sem se deter e cumpriram-se trinta dias.

Depois foram quarenta e todo o movimento cessou.
Desceram as águas recolhendo submissas aos ribeiros, aos regadios, gotejando das macieiras, enchendo as ervas de brilhos.
A Catedral adormeceu num imenso campo dourado de searas, devolvendo as sombras às entranhas labirínticas dos seus túneis, e as heras puderam então de novo crescer pelas paredes.

13 comentários:

Leto of the Crows disse...

Um deserto pintado a tinta negra, tinta essa que o afogou em si, demarcando-lhe o que de mais notável se expunha aos olhos de quem tudo vê por não mais conseguir ver.
E que vejo eu? Vejo palavras que descrevem a tinta, frases que enfunam as velas do pincel que desliza com uma sôfrega suavidade imortal sobre as ondas que sacodem o deserto impiedoso.
E muito me agrada o que vejo ^^

Um Beijinho!

Gotik Raal disse...

Leto of the Crows,

Um deserto impiedoso, pintado a tinta negra mas ainda assim temporal. Um mar de forças infinitas que, após o tempo necessário para serem presenciadas, recuam e se extinguem...

Beijinhos,
Gotik

bat_trash disse...

nasce das nuvens emana da terra
leito de peixes, espelho da mata
pura, sutil, transparente...
salta como lágrima de nuvem
após nublados presságios
inunda a terra com seu véu
caminha isenta de ágios
sem dono sem freio.
nascida do barro, filha do céu
princípio da vida.

bat_trash disse...

Voltaste desse recesso bem inspirado. Estou gostando de ler.

Beijos.

Gotik Raal disse...

Bat Trash,

Leste algumas das coisas que pensei e não escrevi... mas já me estou a habituar :)

Tenho outra resposta para ti, mas essa requer o cuidado da luz do dia...

Um beijo,
Gotik

Lady Alexiel disse...

Desta vez, acredites ou não, foi-se desenhando um sorriso nos meus lábios à medida que te lia.
Talvez estranhes; o quadro que pintas é suficientemente... (não vou dizer perturbador, acho; vou dizer antes...) desolador para não despertar uma reacção deste tipo.
E, no entanto, foi a minha face à tremenda simbologia que estas palavras albergam.


Neste momento não tenho ânimo para comentar decentemente mas prometo que voltarei.
Talvez até me faça bem reler estas palavras, como se retratassem a minha própria kátharsis)...

...só é possível renascer depois de uma longa e -sempre- solitária provação .
Estas tuas palavras vieram recordar-me isso.


Um beijo*

DarkViolet disse...

Da neblina renasce o Ser, dos relâmpagos rasga-se as veias, da torre chega-se aos mantos das batalhas. Os vales profundos acolhem o badalar dos sinos até à escuridão serem os ramos das paredes dispersas

witch disse...

Hei-de inventar um verso que te faça justiça...:)

Por ora, vou viajando por esta terra fluida, margem e leito de um rio de águas lentas, tão devagarosas que escapam da moldura do tempo...

Coisa de maravilha, sûrement!


Kisss...

Gotik Raal disse...

Lady Alexiel,

Em nome da verdade, deixa-me dizer-te que a simbologia do meu texto está um pedaço para além do meu controlo. Surgem-me as imagens, como o Sino, e depois - mesmo se com relutância - não tenho outro remédio senão escrevê-las. Como disse à Bat Trash por estes dias, as palavras são um pobre reflexo dos reinos onde as coisas (mesmo as inventadas) acontecem. Mas temos essa capacidade, nós pobres humanos, de as receber como coisa menor e transformá-las, transcendentemente, uma vez cá dentro.
(E tu não vires as costas aos reinos da poesia)

Um beijo,

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DarkViolet,

Vejo que navegaste na mesma corrente, mas..
Vá lá homem, diz-me exactamente o que pensas, por detrás dessas palavras...!

Abraço,

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Witch,

São rios sim, por vezes de leito por vezes de sangue. E é o meu lúcido desejo que se estendam para além dos tempos, livres de qualquer moldura, a partir deste meu belo século décimo quarto, entretanto décimo quinto. E nada mais justo, em si mesmo, do que um verso.

Kisss... também,

Gotik Raal

Lady Alexiel disse...

Gotik,

sei bem ao que te referes. A maioria dos meus textos são assim: uma imagem (às vezes uma frase) que me surge e à qual sinto necessidade de dar um corpo. E, esse corpo, às vezes esse corpo surge tão naturalmente que chego a duvidar se as linhas que vou escrevendo são de facto minhas ou se tudo são histórias que já existiam, trazidas nos murmúrios do vento, esperando apenas alguém que estivesse em silêncio tempo suficiente para as ouvir...
(quanto a isso... não devo deixar; talvez esteja apenas a caminhar pelo deserto...)

Um beijo*

DarkViolet disse...

Tentarei para a próxima ser mais directo, sem perder um pouco da minha identidade:)

Gotik Raal disse...

Lady Alexiel,

Descreveste bem o processo. Mas ao mesmo tempo te digo que tem tanto de estrangeiro como de próprio, e aí reside a estranheza.
Quanto às travessias do deserto são, como o pousio, essenciais!

Beijo,

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DarkViolet,

Acabaste de o fazer :)

Abraço!

Gotik Raal

Frankie disse...

São-no, de facto, Gotik.
E, a minha, acabou por ser mais breve do que esperava ;)

Um beijo*