quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Hieronymus

O sangue apoderou-se das tuas órbitas. Lentamente ergueste o braço para apontar aquele que escorria dos meus olhos e, na verdade, era desconhecida a temperatura das minhas lágrimas.

Os sinos tocaram sem horas, chocando uns contra os outros; depois, quando o metal se transformou em pedra, o seu toque fez tremer toda a terra.
Os cães, pelo sobre a pele e sobre os ossos, abandonaram as fossas e os covis. Vagueando sem propósito cravaram os seus dentes, um após o outro num tempo de rigor demente e com uma profundidade enraivecida. Os pássaros gritavam nos céus e as gralhas desceram sobre os que na praça olhavam o alto, a todos furando os olhos, como relíquias.
As árvores secaram e os galhos quebraram-se, enegrecidos todos os ossos partidos. Forquilhas e dentes tortos. 
A água inquinou e todo o pão criou bolor, azul da côr do veneno.
Depois vieram as chamas, e incendiaram todas as lembranças e pensamentos do meu crânio e, nas lojas, todos os perfumes arderam.
O espírito do rato era no homem, e neste habitava o vazio. Em tudo havia movimento mas a vida estava, para sempre, ausente.

Tinham-se desatado os nós. Todos os sentidos eram perdidos, e mesmo a idéia de que um dia houvera a ordem nunca, agora, existira.

Depois acordámos, lado a lado, as mãos dadas e olhamo-nos em mudo espanto; mas neste era ainda maior a tristeza do que o silêncio. 
E tínhamos espadas cravadas no coração.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A Praga de Anémonas

Não há maior Terror do que as criaturas dos homens. Aqueles (seres daninhos) que escolheram viver nas margens de si mesmos; que a cada dia me impedem de alcançar os mares negros e profundos e que depois, como uma praga de anémonas, se erguem entre mim e as margens, que se fizeram para descansar.
O homem é a Praga Máxima. É a transformação dos números místicos na grosseira aritmética das hordes - dos que vomitam o caldo á visão de um campo de batalha. É o maior pecado. Aqueles que escolheram tolher o uso da alma e da inteligência do corpo, na posse de todos os sentidos embutidos, para aniquilar o que de bom ainda pudesse resistir - é por isso mesmo, e hoje, o meu adeus ao mundo dos homens.
Hoje é o dia em que cuspi no mundo, um cuspo de asco absoluto.

Serei doravante apenas um filho do Deus Maior; um de entre aqueles que, no amarfanhar extremo do sangue (e das veias, e do coração) se fingiram mortos no campo de batalha. Mas apenas pelo desejo de sobreviver para morrer antes no combate seguinte.
É uma diferença abismal: ser um guerreiro no terreiro da derrota incontornável, ou um eunuco nos vastos campos da vitória da vergonha.
E ainda assim toda a vergonha é a minha, de um dia ter sido homem.

Este é o mundo do meu corpo vivo, mas nem por isso acreditarei que existe.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Bloody Mary

A mesa era comprida, e de tal modo longa que ao fim das dez taças os meus olhos ficavam-se na metade de cá. Estendiam-se aos lugares das aias, se tanto - e daqueles cujo pescoço já não estava ao alcançe, nem dos caprichos de ódio da Rainha, nem das fúrias sanguinárias de Gotik Raal.
A mesa, sob um escuro e sujo manto de damasco, enegrecido do asco, sulfuroso, empurrava os limites do velho salão; daquelas paredes sujas das fogueiras, das chamas que não se extinguiam desde os tempos do velho Rei - Pai dos Avós do meu próprio Pai - que aportara à ilha faminto, descendo de uma Nau esculpida nas árvores da Floresta de onde, dois anos antes deste dia, se haviam cortado os tampos desta mesa.
As discussões do presente, envenenadas, continuavam intermináveis.
À cabeceira, no outro extremo a trinta jardas, Bloody Mary bocejava. Com o osso e a gordura de um faisão, escrevinhou umas coisas numa velha gravura (representando uma forca e o seu pêndulo) e, com um trejeito ímpar da faca de trinchar - isto me foi contado mais tarde - fez-nos chegar às mãos os seus singelos pensamentos. Assim se lia:

"Ah, este pasmar em dia de jograis. Quão repugnante é este alarido, e o ter de rir com hora certa. Ter de verter lágrimas pelas lágrimas. E fingir o espanto da surpresa, e contudo anunciada com trombetas. E, o que é pior que tudo, o ar solene. Esmago as minhas pernas sobre o peso deste trono e enterro os dentes nas palmas das minhas mãos. Quantas vivem em mim! Quantas conversas não teria no silêncio mais profundo, se tudo se aquietasse. Tragam-me a espada e farei rolar cabeças. Nem que, apenas, pelo alívio de uma e única convulsão genuína."

Leu-o primeiro a Rainha.
Depois, sem o mais leve bater de olhos, depositou a velha gravura no meu prato entre os ossos já roídos.
O sangue correu-me célere nas veias: dos caprichos, do pasmo, dos ódios e do enfado.
Ainda assim, apesar de todos os vapores e sempre vítima do demónio lúcido da minha mente, avaliei as circunstâncias: três Cavaleiros, sete Ministros, quatro senhoras das noites de Deboche, cinco Embaixadores. Os Pajens presos das sombras bruxuleantes das fogueiras, como que esculpidos na pedra das paredes, encarregar-se-iam de que o salão estivesse limpo e arejado às primeiras luzes da alvorada. Os tempos eram de Inverno e todas as novas eram reféns da neve que nas manhãs cobria os caminhos. O meu sono estava assegurado. Tudo era certo.

Com um gesto menos ágil do que mesmo para mim próprio admitiria, desembainhei a espada e lancei-a, silvando sobre a mesa, sobre o sujo manto de damasco. Cortou os ares, cegou todas as conversas, e enterrou-se no outro extremo até à altura dos joelhos.

De um único salto, Bloody Mary tomou-se da espada pelas costas e sobre os seus longos cabelos apodrecidos, e decepou numa volta todos aqueles que tinha à distância de um cálice. Não houve pânico. Apenas o tempo suspenso, entre aqueles e os outros que se seguiram.
Depois fez-se o silêncio, e de novo a paz tomou conta do salão e durou, plena, até ao final da ceia.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Cristo no Deserto

Naquele dia, a manhã não afastou as trevas como era seu costume.
Ao invés, as primeiras luzes trouxeram consigo um véu metálico, de um brilho opaco, que reflectia a têmpera da grossa armadura que envolvia toda a Terra desde as matinas.
Depois foi um trovejar rouco e enraivecido vindo das entranhas do chão, e que anunciava a chegada das águas, do dilúvio.
Da torre mais alta da Catedral, cujas janelas estreitas deixam abarcar os quatro cantos do mundo, por todas elas se anunciava aquele cerco dos mares que, num ápice, devoraram tudo o que era seco.

Coisa de maravilha. As águas negras cobriram as represas e diques, as árvores, os caminhos e os castelos, encheram todos os poços e fossas, e não mais houve cores no céu ou na terra, e não mais houve terra ou céu. Apenas aquele inferno de mercúrio, sem espuma.

A Catedral fez-se Nau e então, lentamente, soltou amarras daqueles verdes prados submersos e partiu, o ventre cheio do sombrio silêncio, as naves enfunadas pelos seus ventos de séculos. Sobre as ondas, a torre rasgava círculos na copa das núvens, e nestes estava toda, a única luz viva que se viu naqueles dias; e por estes desciam todas as águas do céu que libertavam os vapores de enxofre das águas da terra.

Por três montanhas passou sem aportar e cumpriram-se vinte dias.
A caça, hirta e lívida de morte flutuava à deriva, os cascos entrechocando-se como mastros - e tudo o que tinha chifres era morto.
Passou um sino sobre as águas com dois camponeses adormecidos, da sua corda pendendo, enforcado, o monge das horas - e tudo era chumbo.
Por duas colinas passou sem se deter e cumpriram-se trinta dias.

Depois foram quarenta e todo o movimento cessou.
Desceram as águas recolhendo submissas aos ribeiros, aos regadios, gotejando das macieiras, enchendo as ervas de brilhos.
A Catedral adormeceu num imenso campo dourado de searas, devolvendo as sombras às entranhas labirínticas dos seus túneis, e as heras puderam então de novo crescer pelas paredes.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Túmulos. IV.

Partimos para Leste, pelas infindáveis curvas brancas do rio; mas cortar a direito, por uma vez na vida, era impossível. Em vez disso o caminho afundou-se-nos nas veias, pleno de paciências, de silêncios, da certeza dos tamanhos relativos - do mundo e dos nossos.
Por fim o rio esvaiu-se nas planícies agrestes de vegetação rasteira e então virámos a Norte e a Leste. O percurso era feito de todos os trilhos pequenos das aldeias, do tempo em que éramos poucos sobre a terra e, de facto, naquele momento fomos únicos. Foi toda nossa a pena, a dor e os céus das nuvens mais altas do que a vista alcança.
Passaram duas luas, antes que finalmente tomássemos o caminho do Sul e do Leste - mas hoje, ao pertencer a estes muros de pedra que me abraçam, não me lembro de quantos dias tinham; apenas recordo aquele Ser branco no céu, duas noites a fio, das sombras de cinzas suaves e dum recorte perfeito suspenso dos confins, do negro.
E depois foram mais curvas, mais rio, e quatro cumes de morte - apenas conquistados por aqueles que já foram deste mundo, e regressaram para de novo partir. Subir para morrer, e descer para de novo negar a vida.
Vieram os campos, de pós sujos, dos minérios; sítios que a Criação não logrou alcançar - tudo cinzas, ferros magnéticos. E os rios transversais - mas desta vez o caminho era direito, e todas as curvas se esbatiam nos cantos dos olhos.

Por fim alcançámos os pântanos cobertos de um branco de gelo invernal. Mas não menos pântanos.
Naquele mundo esquecido os nossos sons morriam perto; a minha corrida metálica, da armadura descompassada pelas quinhentas léguas a fio, e o arfar dos cães das línguas enormes pendendo já sem saliva, as unhas rasgando as últimas placas de neve e sendo rasgadas por estas. Também eles davam sinais do fim, da inquietação do mundo imenso para lá daquele tempo, que acabaria nessa noite.

Chegaram as trevas. Sentei-me no meio da clareira das árvores nuas, o elmo entre os joelhos. Os cães partiram e regressaram com a lenha húmida nos dentes, e com esta marcaram um círculo à nossa volta. No centro, eu era a torre caída e eles, companheiros de uma vida, formaram as ruínas de uma muralha em meu redor.

E assim permanecemos, sem som, sem olhar, indo-se os sentidos sem regresso. Podia ouvir os lobos da noite, mas os cães inquietavam-se apenas com os silvos dos meus demónios. E por fim acendeu-se um tronco, como um diabo. E logo dois. E todo o círculo de fogo se ergueu na noite.

Naquele instante, dos nossos corpos fez-se a pedra e fez-se o gelo.
E ali permanece, ainda hoje, a escultura oca. Dos dias em que fomos o mundo todo.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Fata Morgana

Naquela manhã todos os bichos dormiram um pouco mais. 
Numa breve existência fóssil aguardavam que o calor do dia, de um sol morno e sereno como um lago, afastasse a fina camada de geada que a noite lhes emprestara, como um manto. Todos os sons eram ainda em silêncio e os sinos e os monges do mosteiro haviam falhado as Laudes.
No horizonte a perder de vista alongava-se a miragem do teu castelo, escura e densa; tomada de uma vibração imperceptível anunciava o teu regresso.
Do alto das minhas muralhas, envolto nas peles da última caçada e as pálpebras tão quietas como as pedras da torre, avistei-te, por fim, a duas léguas.
Trazias a tua floresta, um círculo mágico de raizes altas e ramagens em abraços de cobras - e a floresta caminhava contigo, deslizando sobre as neblinas matinais.
O teu caminho era tortuoso, ainda que a erva se estendesse fresca à tua frente. Cresciam-te rochas aos pés e os regadios transbordavam de exaltação. Estendias os braços e os corvos nasciam-te das mãos. Viravas a cabeça e soltavam-se tornados dos teus cabelos. Fúria imensa.

As duas léguas desdobravam-se, intermináveis, e eu sabia que naquele campo não havia batalha que pudesse vencer ou armaduras para ferir de morte. Todas as minhas lanças se renderiam inúteis.
Por fim, tomada do cansaço alcançaste o passadiço. Acenei-te do alto e os teus lábios esboçaram o sorriso, mas os olhos marejados de penas negras não me puderam então ver. E em silêncio recolheste aos teus quartos.

E apenas nos vimos de novo à ceia, na Primavera seguinte.


(dedicado à Morgana La Folle)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Passagem Interior

Onde antes todo eu era sol avançam hoje os fiordes, de novo para as águas. Um estranho calor desprende-se deste mundo puro, como a seda das tuas mãos.
As águas negras, imensas, de profundidades milenares, despedem-se dos oceanos e tomam por fim o rumo dos estreitos e das passagens, das grandes plataformas de gelo, entre a terra mãe e os cumes dos arquipélagos.
São os domínios das águias reais e douradas, dos ursos castanhos e dos grandes cetáceos - de todos os olhos negros, mágicos e inalcançáveis onde habita ainda o Deus dos primeiros dias. Um mundo entre os mundos. O maior de todos e o único.
O tempo, esse, entra na passagem interior como todas as criaturas, tomado do pasmo das alturas e do azul dos glaciares. Chega com os homens mas vive um pouco menos do que estes. A vida, enquanto coisa nossa, nada mais é do que um suspiro, afinal, um leve agitar das brumas de onde emergem os navios.
E todos os navios são fantasmas. Todas as brumas. Todas estrelas sobre o Árctico.
Não sei onde me encontrar, sem me sentir perdido.
Mas daqui, do fundo e do alto, percebo o âmago destas coisas mais do que a mim mesmo.
Este é o meu mundo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O Bosque

No centro do bosque, esquecido em cima da sela, as árvores dançavam à sua volta. Tudo era mais veloz do que o tempo preciso para nomear as coisas. Imóvel, os braços pendendo e há muito por si esquecidos, ondulavam na brisa verde musgo.
O cavalo arremessava as crinas com movimentos erráticos do pescoço tentando afastar, também ele, aquele sentimento confuso de ter perdido os nomes, esquecido os caminhos e o sabor das plantas.
Era um mar escuro, imenso, de criaturas estranhas sem a aparência das formas, e até onde a vista alcançava nada havia, de outrora conhecido, que perdurasse.
Todas as canções se esfumavam no vento simples que silvava por entre as fendas da viseira do seu elmo. Não era Bóreas ou Zéfiro, Sirocco ou Levante. Era apenas um redemoinho de todas as coisas soltas.
Os laços haviam-se quebrado e aquilo que antes tão ciosamente guardara no cofre férreo do coração escorria agora, solto, entre as pedras.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Sarraceniaceae

Na noite, as trevas distinguem-se pela densidade. Do escuro ordinário estas se distinguem.
É um negro que envolve, como o abraço das plantas carnívoras, cheio de silêncios, em que os gritos morrem na boca. Gritos como a fome, como a dor. Gritos como o amor, essa criatura de sanguessugas.
Na noite as trevas aguardam, apenas.
E ao contrário dos grandes carnívoros das estepes, o seu fervor arde sob o manto nocturno, enlouquecido, na imobilidade. Todos os espíritos se acotovelam, estendendo as mão translúcidas, esses ogres do desejo. É um querer funéreo, de gargantas secas; de terras exauridas, sem pousio.
E todas as vítimas então se precipitam; e é seu, e é esse, o desejo da morte. Com os olhos ao alto, e à distância de um único passo, mergulham por fim nos precipícios da alma. São as crateras abertas, na ausência, na tristeza de si.

Depois, acorda-se para descobrir que a manhã nunca chegou a nascer e que as trevas de ontem são os poros da pele de hoje, e que subitamente o tempo é um contínuo transversal, um arco-de-chuva negro; um colosso helénico, feito do frio do bronze, as imensas pernas abertas unindo os portos inseguros e as estrelas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Dogma




Na solidez da rocha assentam as mais altas construções,
e nem todas as palavras juntas dizem da mais humilde revelação;
E lá longe, no lugar onde a terra abrupta acaba, é apenas o princípio do céu.

Pois que a imensidão de Ciência é só o corpo de um lago nocturno,
que termina na superfície das águas, acima das quais nada existe.


No mais ínfimo grão de areia se presta culto ao maior dos templos,
e o sol mais abrasador é apenas um brilho fugaz na janela do meu catre;
E no entendimento profundo do imutável, se encontra a chave das infinitas possibilidades.

Pois que no incompreensível reside o inexplicável, 
e na frase mais curta, o indizível.


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Annapurna


Catedral dos meus sentidos,
deste espaço imenso à minha volta;
onde a terra corre agora, e sempre solta
entre as fendas dos meus ossos já partidos.

Quisera eu jamais te magoar,
mas foi chegada a hora de subir;
galgar os ventos, as escarpas, decidir
que este sono do meu sangue, há que arrancar.

Seguir-me-ás depois, por fim, um dia,
quando as nuvens do meu céu te alcançarem;
e as tuas negras veias reclamarem
do teu ser, da alma, a vasta geografia.


sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Nocturno

Com o fresco da manhã a dor aquietou-se.
As feridas sofridas na noite tomam-se de uma atenção ímpar; os tímpanos perfurados, os dentes rotos. Os ossos escanados e as unhas que crescem tortas, furando as massas do crânio. Ainda que, e apesar dos suores dos corpos - pois que a noite é inimiga de todas as anatomias.
No entanto ali era só eu, naquela noite em que sofri os horrores dos meus sentidos. Entregue a mim próprio não encontrei melhor carrasco.
Infligi-me as maiores torturas, as mais sangrentas imagens, os sons mais lancinantes emergindo das minhas entranhas abafadas no resguardo do linho dos lençóis e do peso das mantas.
Nessa noite, todos os sonos soltos corriam, vorazes, as alas do castelo. E contudo deixaram o arco da minha câmara envolto nas sombras do silêncio. A vigília nocturna é coisa da maior solidão.
E a solidão é isso. A ausência da alma que deixa entregue ao corpo frágil a consciência. Aquele instante singular em que nos vemos de costas.
Ausente, e num raro vislumbre do homem, filho do homem, apenas a dor excruciante impediu a ruína do meu corpo.
Mas com o fresco da manhã a dor aquietou-se, e por fim adormeci.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"En ma Fin gît mon Commencement"

Descansa. O corte no teu peito não é assim tão fundo. O coração está ainda à guarda das costelas.
A morte passou ao largo, desta vez; e vai já longe, indiferente ao teu rasto de sangue.
Não te deixes dominar pelo medo. Aquilo que tu és, realmente, e embora ignorante, é intocável.
Devias levantar tenda e seguir viagem, neste instante, ainda que o teu corpo não te possa seguir. Mas no momento em que partires serás apenas o teu íntimo - e desse modo saberás quão grande és, agora que livre da carne.
Não te distraias, não podes. Não deixes, dessa forma, que todas as manhãs do mundo te interrompam a noite, que é só tua.
O caminho que escolheres será O caminho, ainda que apenas o teu. Nada se pode opor a quem tem o sangue frio de ver no seu reflexo o seu maior assombro.
Agora que subiste ao púlpito da tua consciência, descobriste em toda a assembleia não mais do que a face contraída dos teus anseios.
Deste a volta ao mundo e no fim disseste - enquanto, num gesto de incomensurável graciosidade, descobrias à lâmina o teu pescoço de infinita elegância: "No meu fim está o meu princípio."



(Gotik Raal sobre sons de Michael Nyman, Hilary Summers, "If")

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Pater

De todos os luzeiros do céu, sei lêr os que falam do teu nome.

E quão curto é o tempo entre o aqui e o sempre, pois se o sempre é também o aqui e o agora.

sábado, 15 de novembro de 2008

O Silvo da Serpente

Veloz, como a sombra nos relógios de sol à passagem dos cometas, carregando em si mesmo o prenúncio e o desígnio da morte.
O tempo ampliado na súbita e aguda consciência do silvo, do ganir de cães.
O som grave e cheio, de um sangue azul implacável de avalanches.
E a perfeita circunferência traçada na ponta da espada, secante à jugular.

O pescoço a romper, todas as cordas da lira, uma por uma estalando ao ar seco de um fim de tarde. O final do estio.
E o resto de um fôlego, no último e milionésimo adeus ao calafrio do aço.

E esse instante gravado a ferro e fogo naquele olhar fixo, incrédulo, da cabeça a rolar por entre as ervas.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Túmulos. III.

A barca imobilizou-se às portas do grande deserto branco. "Sois chegado ao vosso destino."
Do véu de neblina, que espalhava o silêncio das águas geladas àquelas primeiras horas, emergiu o dorso de uma baleia azul e o barqueiro disse: "Eis o vosso guia."
Depois, juntos varremos as ondas sem rasto ou espuma, os vertiginosos e oceânicos abismos, as rochas negras de azul e, por fim, o labirinto de fiordes que se abriu ao vasto manto polar. Sobre o gelo, dois ursos brancos, e a baleia disse: "Eis a vossa guarda."
E então juntos caminhámos para Norte, seguindo o trilho aberto pelas nuvens, a elite dos exércitos boreais no cume do mundo, para lá do alcance da mais poderosa das bestas. 
"Este é o vosso rei", disseram os ursos às donzelas e eu segui-as; três raposas do Árctico num rasto de sangue de leões marinhos, por três dias e três noites em que o Sol nunca se pôs.

E quando de novo olhei o céu já não o vi. Nem céu nem alto, ou algo ao seu redor. Nem gelo no horizonte ou sob os pés. Nem pés nem corpo ou espada no meu punho. Em tudo, apenas, o mesmo branco neve longe ou perto, nem sombra de miragem ou deserto, nem deste que aqui estou, envolto neste manto sem o ver.

Apenas esta consciência: de não ser mais que ser eu, que não se apaga.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Daedalus

Nós os dois,
somos a Lua.
Tu
és a face oculta.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Túmulos. II.

Escuto a ressonância diáfana dos passos no embarcadouro, 
o macio entrechocar de vozes que se abraçam e depois, juntas, mergulham nas águas verdes. 
Descem pela trança de algas, essa espiral que, das pedras maceradas pelas rodas das carroças, conduz às grades do meu elmo. 
Amortalhado neste casco aberto, meus são todos os gestos do silêncio. As guelras, os labirintos de água, a eternidade deste breve abismo suspensa do voo dos falcões. 

No fundo do lago,
descanso.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Números



I, II, III, V,
VII números
primos, que nós éramos.
E depois rimo-nos
da singularidade.

domingo, 9 de novembro de 2008

Nuvens



Mais do que o tempo são as nuvens neste céu,
esses gigantes
das vastas planícies onde os pássaros se deitam.
Nuvens dos meus olhos, que se elevam e deleitam
nos feitos importantes,
dos dias em que o reino, mais além, aconteceu.

Por esse mundo imenso, à vela
velha nau, que é deste azul à beira mar,
esquece a rota sem destino que é a morte.
Sempre mais, de outras viagens, de outra sorte!
Desta terra sobre o mar - que é navegar,
se lembrarão depois os feitos, sobre a tela.

E tudo quanto sou a ti o devo, afinal.
A ti, que me tiveste e me fizeste, deste zelo.
E se, alguma vez, me enfureceste
foi nos dias em que cego te esqueceste
do quanto já foste, sempre e tanto, e tão mais belo.
Portugal.